Testemunhos Darfur

Do diário da comunidade/missão de Nyala
8 de Janeiro 2011
PARADO PELOS AGENTES DE SEGURANÇA
Na nossa missão de Nyala-Sul, Darfur, estamos optimistas acerca da nossa visita mensal e regular celebração da Eucaristia no centro católico/capela em Bileil.
Porém, é verdade que, vária vezes, o pessoal da missão, depois de ter sido severamente interrogado e o carro completamente revistado nos dois pontos de controlo antes de chegar a Bileil foi, algumas vezes, proibido de prosseguir viagem.
Aconteceu ao nosso confrade e colega P. Jervas, sudanês, em 2007. Além disso, o seminarista Gir Mayouam, que acompanhava o sacerdote, foi espancado ali mesmo por uns homens da segurança antes de serem obrigados a voltar para trás (para Nyala).
Hoje, 8 de Janeiro de 2011, aconteceu-me também a mim, pessoalmente, quando estava a caminho de Bileil com a intenção de visitar a escola (não celebraria lá a Missa porque já não havia comunidade de cristãos, pois tinham partido para o Sul).
Passei sem dificuldade os dois pontos de controlo no caminho de Bileil. A surpresa apareceu porém quando, ao chegar à dita vila de Bileil, fui parado por três homens. Não me foi difícil adivinhar quem eram: agentes da segurança nacional. Embora muito educadamente, insisti que se identificassem antes de aceitar responder ao inquérito que tentaram fazer-me ali nesse mesmo instante. A insistência da minha parte fez com que eles não escondessem a sua furiosa atitude.
Depois de revistarem o velho Land Rover a pente fino bateram as portas e ouvi a voz colérica daquele que se sentou ao meu lado: “conduz o carro para o Departamento da Segurança Nacional. Chagados aqui, a ordem foi seca: “senta-te”. Olhei em volta daquele pátio despido de qualquer tipo de mobília, quando ouvi a voz repetida e acompanhada de um revolver apontado na minha direcção: “aqui, ou obedeces ou sofres as consequências. Percebi então que devia sentar-me no chão.
Felizmente, o sol naquela manhã (pelas 9 horas) de inverno do deserto ainda não queimava muito a areia. Finalmente, depois do que me apareceu ao fim do longo inquérito em que um dos agentes perguntava e o outro, de pé, escrevia num grande caderno, fiz menção de me levantar; mas a ordem rancorosa foi repetida: “senta-te”. O escrivão fechou o caderno e eu continuei ali sentado no chão a ouvir insultos cínicos de toda a espécie que se concentravam à volta da palavra mubachir e seus derivados: missionário, pregador, catequista.
“Tu és um dos que suportas e apoias os do Sul, os que querem a independência, separando-se do Sudão, biladna el habib, o nosso querido país!?
Não, não vais ver a tua igreja nem a tua escola de aqui de Bileil; aliás, amanhã tudo isso será destruído, não só aqui mas em todo o Sudão e o nosso país será todo islâmico e só islâmico”.
A minha decisão de ficar em silêncio e não responder aos insultos que me martelavam os ouvidos e dilaceravam o coração foi, ao que parece, recompensada.
De facto, já ia para quase uma hora sentado na areia cada vez mais quente quando ouvi alguém (talvez o comandante de turno?): leva-lhe uma cadeira e dêem-lhe as últimas instruções.
Já sentado na cadeira, ouvi então os últimos detalhes das ordens já antes ditadas: volta para Nyala e não apareças aqui sem a devida licença, a guia de marcha que podes obter no escritório do alto-comissário da cidade.
Depois de devidamente carimbado neste nosso escritório, poderás então prosseguir e visitar a tua escola e igreja... se ainda as encontrares de pé.
Eu podia responder-lhe que estava bem informado e que não tinha desobedecido às regras daestadia e residência dos estrangeiros no Sudão. Mas tal poderia complicar mais ainda a situação.
Prferi agradecer-lhes e, sem olhar para trás, pus-me no caminho de volta a Nyala. Dei graças a Deus, agora que estava livre de perigo. E no caminho ia reflectindo e rezando...
Tenho comigo a guia de marcha Cartum-Nyala. Recentemente, só os membros das ONGs é que são obrigados a apresentar essa licença quando se ausentam para as suas operações de serviço humanitário. A Igreja – que o governo não considera ONG – trata os seus casos junto do Departamento dos Assuntos Religiosos. Mas, como também fui testemunha outras vezes, os agentes da Segurança Nacional têm respostas diferentes das dos seus colegas de serviço da capital, Cartum.
“Aqui em Darfur estamos em regime de guerra e não estamos dependentes das ordens dos comandantes de Cartum” – ouvi-lhes dizer em várias situações semelhantes a esta de hoje.
Digno de menção é que o meu colega de missão, o etíope Pe. Asfaha, foi também várias vezes vítima de situações semelhantes mas, felizmente, tudo foi resolvido positivamente ali no momento. O facto é que os agentes de segurança não conservam sempre o mesmo bom humor.
Por vezes basta uma mudança de turnos e os novos agentes, consequentemente, já não conhecem as nossas caras nem o veículo que conduzimos (sempre o mesmo velho Land Rover).
Finalmente, existe o facto de que, geralmente, os homens dasegurança deixam espaço suficiente para ajuizadas e corteses palavras da nossa parte que permitem com que se leve tudo a bom termo, deixando-nos passar livremente.
Graças a Deus, a não ser pelas poucas e desafortunadas vezes como hoje aconteceu, o modo habitual como se têm desenvolvido as coisas até ao presente, é encorajador e de esperança.
Feliz da Costa Martins
A VIDA BEIJOU A MORTE
‘Há mortos e feridos em Bulbul. Há mortos e feridos em Khur el Bachar’.
Quisera enganar-me, mas estas e outras passam a ser notícias de rotina no Darfur. Os comentários na rua terminam com um encolher de ombros que diz muito: ‘que posso eu fazer? Os soldados da paz (União Africana) andam por aí aos montes. Em Bulbul e Khur el Bachar seria necessária a sua presença. Mas não. Andam por aqui a passear no mercado da cidade, a atrapalhar quem quer fazer vida...
Levanto os olhos para a cruz. Vejo a morte que resiste e não quer morrer: ‘Pai, porque me abandonaste’? Palavras ‘escandalosas’ na boca daquele que é o Filho de Deus?! Tiveste mesmo que morrer desse jeito?! Aceita, Senhor, este gesto meu e destes irmãos e irmãs de Nyala. Não estamos aqui para fazer complot de vingança à maneira humana. Também não queremos anunciar ao mundo o luto pela tua morte. É o nosso agradecimento que te vimos trazer. Hoje, de maneira muito especial, com todos os redimidos do mundo inteiro. Hoje, dia da grande sexta- feira (a tradução literal do árabe para a 6ª feira santa ).’ A vida beijou a morte e abriu-lhe as portas da eternidade feliz. Cantemos Aleluias! As nossas vozes já não podem destoar. O Senhor Ressuscitado está presente e vai afinando, connosco, as cordas da eterna melodia.
Feliz mccj, Nyala, Maio 2007
Os senhores do Darfur
"A Auatif não regressou. Quatro janjaweed apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjaweed. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios.
«Dizias que me ias mostrar a tua aldeia!?» «É aqui mesmo. Foi! Até há dois anos.» Os meus pés estão a pisar escombros; vêem-se canas no chão, sinal de algo que foi a sebe de um pátio. Aqui e além alguns restos de tijolos «verdes» (assim chamados porque cozidos ao sol). O aldeamento já não existe, mas o nome ficou: Talata Ardeb. «A minha casa era mesmo ali em frente. Consistia num kurnuk, uma guttia (isto é: duas cabanas distintas no seu formato e aplicação) e um pátio; a minha foi uma das poucas das 37 famílias que puderam escapar antes do grande massacre, onde foi morta quase metade da população.» Quanto ao El Nur, agora habita, com a mulher e os três filhos, em Majok, uma aldeia perto do aeroporto de Nyala que os janjauid não destruíram, talvez para fazer boa impressão a quem chega a Nyala por via aérea.» «E aquelas mulheres (bem mais de uma dezena) que andam a rebuscar lenha?» «Não as conheço, mas não podem ter vindo senão no campo de refugiados de Kalma, a três quilómetros daqui.» Não muito longe de nós, um rebanho de umas três centenas de ovelhas e cabras vagueia livremente à procura de pasto que o sol abrasador de 43 graus fez desaparecer, aumentando o deserto que, entretanto, espera a próxima bênção das chuvas. Estendo os olhos na direcção das colinas de Dajo e avisto duas grandes manadas de camelos que imaginei tivessem fugido dos seus donos para agora, com toda a liberdade, tomarem conta dos mangueirais aí à volta. Aquelas mangas não terão tempo de se criar e amadurecer. O El Nur, com uma frase que lhe custou muito pronunciar, assentiu: «Tudo o que vemos à nossa volta pertence agora a um só e mesmo dono (colectivo): os janjauid. Terra, manadas e rebanhos, plantações.» «E as mulheres não têm medo?» «O medo está sempre presente. Mas a distribuição de alimentos pelas organizações humanitárias não dá para tudo. Elas sabem que os janjauid podem aparecer a qualquer momento. Mas arriscam porque a prioridade é sobreviver. Tu e eu também estamos em situação de risco.» Procurei dissimular e não dar importância ao arrepio que me veio por todo o corpo. Mas do meu amigo El Nur ouvi palavras que me aliviaram: «Até agora não houve notícias de ataques a estrangeiros. E quanto a mim, já não tenho nada a perder; a minha verdadeira riqueza (mulher e filhos) vive agora em Majok.» Ele parou a olhar para mim, enquanto eu lhe expressava os meus votos sinceros: «Deus te conserve sempre "rico" e te faça realizar os teus desejos.» E ele concluiu à maneira de bom muçulmano: «Ámen.» Quanto a este e outros grupos de mulheres que fomos encontrando a apanhar lenha, só desejo que possam regressar com os feixes ao campo de Kalma. Todas! Porque, frequentemente, algumas delas não têm regressado. Os janjauid são os donos de tudo. E delas também! Quisera não ouvir mais histórias como aquela do grupo de mulheres que saíram, um dia, a apanhar lenha não muito longe do campo de refugiados de Kalma, onde viviam. Uma delas, a Auatif, não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios. Os donos e senhores do Darfur? Não existiriam, se não lhes fosse dada a luz verde dos senhores do Governo de Cartum!"
Testemunho enviado por voluntário no terreno, 9/2007
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Samia Ramadan, 5 anos. Chora e pergunta todos os dias pelos irmãos que foram mortos pelos janjauid em Buram.
Ramadan estava prestes a casar com Leila quando vieram os janjawid… Destruíram, queimaram e levaram-lhe a querida noiva que nunca mais chegou a ver. Depois de dois anos Leila ainda estará viva? Talvez escrava?
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Abd el Wahab e a Raqui, 7 ou 8 anos, trabalham com e como os adultos à entrada do campo refugiados de Kalma a fazer tijolos: «Quero trabalhar aqui, fazer e vender muitos tijolos para fazer uma casa para mim e meus avós.» Os seus pais e resto da família foram mortos pelos janjauid.

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Zinat Abdu, 3 anos, diz que a casa onde vive agora é muito pobre comparada com aquela em que vivia em Bulbul e que no campo de refugiados de Kalma não tem ovelhas nem cabras para guardar e brincar… nem leite. |
Jamal viu-me à entrada do seu campo de refugiados em Kalma e perguntou: «Porque não multiplicais os esforços sanitários aqui? Falta de tudo, mas ao menos se houvesse algumas latrinas haveria muito menos risco de infecções e cólera…» É perigoso parar à entrada de um destes campos, eu sei. Mas eu queria ouvir alguém, falar, partilhar esperanças, pobrezas e riquezas. Que as há. De uma e outra parte. Num e noutro sentido.
Testemunho enviado por voluntário no terreno, 6/2007
Ao abandono
"Correu a voz que a IOM (Organização Internacional para Migração) ia levar – e depressa – os sulistas desalojados para o Sul. Então vieram de muitas partes e de muito longe, sobretudo do Norte do Darfur. Fixaram-se em Bileil, onde já havia tanta pobreza: desalojados. Mas as Organizações têm as suas leis – às vezes leis que não têm em conta a verdadeira situação das pessoas). Assim, não sendo o transporte coisa automática como eles infelizmente pensavam, eles ficaram lá naquela situação. Pouquíssimos têm a sorte de poder trabalhar para alguns árabes(izados) locais. Mas a maioria esmagadora deles estão ali sem nada de nada. Isto desde há um mês. Graças a Deus morreram menos do que eu pensava, mas os que ficam não têm forças para sepultar os mortos (o coveiro ou cangalheiro não é um funcionário aparte e pago como aí, bem o sabes). Mas as viagens deste tipo, mesmo que sejam ONG, não se fazem automaticamente ou só com boa vontade. Quando poderão eles viajar, ainda é segredo (de quem?). Ouve-se mesmo dizer que este ano já não há verbas suficientes para transportar mais ninguém para o Sul. Sabes como é … tudo incerto. Poderias pensar que estou a fazer tragédia mas esta é a verdade. Estamos a forçar todos os meios (ONGs e não só) para que os assistam em medicamentos e alimentos)."
Testemunho enviado por voluntário no terreno, 5.2007
Somos muçulmanos. Durante séculos fomos conhecidos pelas carcavanas que levávamos a Meca. Agora nenhum árabe aparece por aqui. Nenhum pergunta pela nossa sorte... Só vocês aparecem por aqui. Fomos abandonados. Obrigado! Rezamos por vossas famílias. Obrigado! Obrigado!
Testemunho de um líder religioso num campo de deslocados na fronteira do Chade com o Sudão, 2007
Abdu e Hachim bateram à porta da missão era quase meia-noite. Afoitei-me e fui abrir. «Pedimos protecção por esta noite», dizem. Quase que falam ao mesmo tempo e têm pressa de entrar. «Os amigos dos jaunjauid sabem que estamos aqui na cidade». Abdu e Hachim fugiram de Greida onde se luta há 4 dias. Apareceu uma alma amiga que lhes deu guarida e protecção porque sabia o perigo que tanto eles como eu corríamos. Na manhã seguinte partiram para o sul.
Testemunho enviado por voluntário no terreno, 04.2006
Textos enviados por colaboradores da Campanha no Darfur. A reprodução destes textos é permitida e incentivada sob a condição da menção da fonte (incluindo endereço internet). A autoria destes textos teve de ser ocultada devido a ameaças recentemente efectuadas à integridade física destes.
A organização, 17/09/2007