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Darfur: O genocídio silenciado
Darfur: O genocídio silenciado Por: FRANCO MORETTI, Jornalista da Revista Além-Mar Não é a capital de um Estado dilacerado por um conflito interno aquela que se apresenta aos olhos de quem aterra no aeroporto de Cartum. Passageiros serenos, controlo dos passaportes e fiscalização aduaneira tranquilos, oficiais simpáticos. A presença dos militares não dá nas vistas mais do que em qualquer outro aeroporto africano. O Darfur está muito longínquo, num outro planeta. A única alusão ao conflito surge quando se avistam alguns ultraleves da ONU, da Amis (Missão Africana no Sudão) e de várias organizações humanitárias internacionais no meio dos aviões de linha.O tráfego pela via rápida que conduz ao centro é intenso, mas não caótico. Dos dois lados, um ininterrupto espaço livre. O taxista arranha algumas palavras em inglês. Diz: «Prédios e fábricas surgem como cogumelos. Graças ao petróleo, estamos em pleno desenvolvimento.» Replico-lhe: «Mas também em guerra… Onde mete o conflito no Darfur?» Interrompe-me com um gesto da mão: não quer sequer ouvir aquele nome.Penso visitar Nyala, a capital do Sul do Darfur, mas a autorização foi-me recusada. A pessoa que me hospedou incita-me a desistir. Conhece alguém na sede da ONU. Leva-me lá. «Aqui te dirão porque não deves ir.» E dizem-mo, sem rodeios: «Nyala é extremamente insegura. Na zona reina uma enorme confusão de tropas: soldados regulares, milícias, forças de paz… Os janjawid matam sem piedade. Assaltam até os campos de desalojados. Onde chegam, destroem tudo o que encontram.» 2,5 milhões à espera do Sul Visito os campos dos deslocados sul-sudaneses nas periferias das três cidades que formam a capital: Cartum, Cartum Norte e Omdurman. Vivem aí 2,5 milhões de cristãos, chegados nos últimos 20 anos para fugir à guerra no Sul. Todos me falam das condições insuportáveis em que são obrigados a viver, do seu desejo de voltar a casa e da impossibilidade de o fazer, porque o Governo não os ajuda. Farida, uma jovem mulher de Hizba, diz-me: «Provêm destes nossos campos a grande maioria das 15 mil crianças de rua das três cidades.» Quando procuro falar sobre o Darfur, faz um gesto semelhante ao do taxista: «Também aqui se morre como moscas.» O marido: «Queremos preparar-nos para as eleições políticas de 2008 e para o referendo sobre a separação do Sul em 2011. Nestas duas consultas joga-se o nosso destino. O Darfur? Lamentamos, mas não podemos fazer nada.» Espicaçado, desembucha: «Durante vinte anos, Cartum fez-nos a guerra. E os soldados que nos massacraram eram na maioria provenientes do Darfur. Chegou a sua vez de experimentar a política do governo central.» Bombardeamentos do Governo Em meados de Março decido, mesmo assim, apanhar o avião para Nyala. Na pista, a menos de 100 metros do posto de controlo dos passaportes, há cinco Mig soviéticos. Um pouco mais adiante, alguns helicópteros de combate, três carros armados, camiões e diversas tendas de campanha. Aqui e ali, pelo chão, montes de munições de grande calibre. Enquanto faço fila para os controlos, vejo militares que dispõem grandes veículos brancos sob as asas dos aviões, dois dos quais, já «armados», estão a aproximar-se da pista de descolagem. Aquilo que eu vejo, vêem-no todos. Mesmo os militares das forças de paz da Amis, que estão ali, impassíveis, ao lado dos seus aviões, dos seus helicópteros, ou sentados nos blindados brancos.Passam poucos minutos e ficamos aturdidos com o roncar dos dois Mig. O amigo que veio buscar-me olha em redor e comenta: «E depois o Governo de Cartum jura perante o mundo que não está a utilizar aviões de guerra contra zonas civis ou para bombardear… Amanhã saberemos quem chorar.» Mas não foi preciso esperar para o dia seguinte para o saber. Ao cair da noite, os responsáveis de uma organização humanitária americana informavam-nos que tinha sido atingida uma aldeia de Bulbul. «Não se conhece o número de vítimas em Bulbul. Depois dos aviões, chegaram os helicópteros: máquinas mortíferas, que disparam sobre qualquer coisa que se mova.» A Amis não funciona Dois dias depois, encontro um Land Rover da Amis. Os militares são nigerianos. Pergunto se têm informações sobre o que aconteceu em Bulbul. Explicam-me: «As regras de alistamento impedem-nos de intervir sem a autorização de Cartum. Essa ou não chega ou chega atrasada. Assim, o nosso papel aqui limita-se a esperar que aconteça alguma coisa, a pedir autorização para ir ver e a redigir um relatório oficial.» As forças da Amis são quase 7 mil…mas é como se não existissem.No gabinete da UNICEF comentam: «Esperávamos que o acordo de paz assinado em Abuja (Nigéria), a 15 de Maio de 2006, entre o Governo e a principal facção dos rebeldes, liderada por Minni Minnawi (imediatamente promovido a “conselheiro especial” do presidente Omar El-Bashir e presidente interino da Autoridade regional do Darfur), conduzisse a uma melhoria da situação. Decidiram o desarmamento das milícias janjawid, o desmantelamento das forças rebeldes e a sua incorporação no exército. Pelo contrário, desde então a rebelião fragmentou-se.» Oferecem-me uma bebida fresca. Está muito calor e o pó seca a garganta. Uma jovem senhora francesa diz-me: «Ninguém protege as aldeias e os refugiados amontoados nos campos de acolhimento. Ultimamente, os combates tornaram-se mais frequentes e ferozes, a ponto de estarem hoje a arriscar a paralisação daquela que é classificada como a maior operação de socorro do mundo.» Voluntários mortos e sequestrados Pelo menos umas 97 ONG e agências da ONU estão no Darfur, com mais de 14 mil operadores. Têm feito milagres. «Hoje, porém – continua a senhora –, as ONG estão a pensar deixar o país por causa dos repetidos ataques contra o seu pessoal. Nos últimos quatro meses foram mortos 12 voluntários, mais do que na totalidade dos três anos precedentes. Alguns são raptados e sequestrados.»Continua o relato uma voluntária norueguesa: «Que a situação se tenha agravado, mostra-o o facto de, desde o acordo de paz até hoje, terem chegado aos campos cerca de 250 mil novos desalojados.» E os mortos? «Ninguém pode dizê-lo com precisão. Há quem jure que sejam cerca de 450 mil. Os desalojados são 2,5 milhões, mais 250 mil os refugiados no Chade e 4 milhões os que dependem das ajudas externas.» O trabalho das ONG conseguiu bons resultados. A taxa de subalimentação passou de 22% em meados de 2004 para pouco mais de 13% no final de Dezembro de 2006. A mortalidade infantil desceu para níveis abaixo da «linha de emergência» (um morto em cada 10 mil, ao ano). Um médico holandês segreda-me: «Estas conquistas arriscam-se a desaparecer devido à crescente insegurança. Já não podemos manter o ritmo de outros tempos. A violência aumenta. Muitas das nossas estruturas foram assaltadas e saqueadas. Abandonar um campo significa fazer parar a chegada de alimentos, água e medicamentos… Os dados actuais preocupam. Em alguns campos reapareceu a cólera, com centenas de mortes. A subalimentação está a regressar aos níveis de emergência. Cerca de 60% das famílias nos campos tem urgente necessidade de alimentos e medicamentos, mas muitas vezes é-nos impedido de intervir.» Um hospital encenado Visito os campos para desalojados de Taiba e de El-Drej. Dezenas de milhares de pessoas amontoadas numa nesga de terra. As cabanas estão tão próximas que, se deflagra um incêndio numa, são dezenas que desaparecem. Foi o que aconteceu no segundo campo: um grito, uma nuvem de fumo… e o pânico geral. A água chega, com um camião dos bombeiros, mas uma hora depois. Demasiado tarde: aos homens fardados não resta senão apagar os últimos tições ardentes.Pouco distante de El-Drej, na estrada que conduz ao aeroporto, está o Posto avançado 55. Deveria ser um hospital pediátrico, mas descubro que é um simples dispensário, ou talvez um simples centro pré e pós-natal. Não o descubro de imediato, mas no dia seguinte. De facto, quando pedi para visitar o edifício, o guarda diz-me: «Tenho ordens para não deixar entrar caras brancas.» Quem deu as ordens? «O senhor Filippo». Filippo habita pouco distante numa casa chamada “Villa Itália”. Não é nem médico, nem enfermeiro. É um voluntário. Explica-me o motivo daquelas ordens: «Em Dezembro passado, alguns jornalistas de um diário italiano vieram ao hospital, fazendo-se passar por membros de uma ONG… e depois fizeram-nos perder a reputação na imprensa.»Construído pela Cooperação para o desenvolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, sob a direcção de Barbara Contini, o edifício foi entregue pelo Governo italiano ao Ministério da Saúde sudanês, e este confiou-a à fundação sem fins lucrativos ítalo-sudanesa Posto avançado 55. Diz Filippo: «Desde que abriu, fizemos 21 mil consultas.» Isto é, cerca de 100 por dia. Uma religiosa que administra um qualquer dispensário de missão, com a ajuda de alguns enfermeiros, consulta quatro vezes mais.Na manhã seguinte, no Posto avançado 55 estão apenas mães com crianças. Um médico local consulta os pequenos; algumas enfermeiras pesam-nos e medem-nos. Está também Filippo: «A estrutura está aberta das 9 às 17. Por falta de pessoal, somos obrigados a transferir os casos mais urgentes para outros hospitais. Temos duas salas operatórias, mas não podemos pô-las em funcionamento, porque não temos médicos.» Também as camaratas para internamento estão vazias. Está tudo surpreendentemente limpo: o pavimento, as paredes, os lençóis das camas vazias… Parece uma encenação.A menos de um quilómetro de distância, há um hospital turco, com 20 médicos e dezenas de enfermeiros locais. A estrutura é simples: um par de pequenos edifícios e muitas tendas, enormes, a abarrotar de doentes que esperam com paciência a sua vez. «Trabalham dia e noite, sem interrupção. Os desalojados de Taiba e de El-Drej vêm aqui, até porque não pagam nada», explica-me o missionário que me acompanha. Só 20% das ajudas chegam A visita aos campos de Kalma e Bileil, a 15/20 km a sudeste de Nyala, é traumatizante. O primeiro é uma das maiores concentrações de refugiados do mundo: 170 mil pessoas (mas alguns dizem ser muitas mais; o chefe do campo, Ali Abderrahman Taher, jura que são 250 mil, e insiste para que as ONG aumentem as ajudas). O segundo, de cerca de 30 mil pessoas, outrora a uma distância de alguns quilómetros, forma agora um só com o primeiro. De longe, os dois campos não são senão uma centelha no deserto. Mais de perto, nota-se um mosaico de tendas de plástico azul na areia cor de argila, choupanas de barro e palha, pequenas cabanas cobertas com folha de zinco. Os desalojados acomodaram-se numa nesga de terra que se estende, como uma longa serpente, entre a linha férrea que leva a El-Daen e o areal seco de um rio, que, durante a estação das chuvas, se enche e inunda amplas zonas dos dois campos.No centro de Kalma há um enorme mercado, o verdadeiro pulmão económico do campo. Aí se vende, ou melhor, se troca de tudo: garrafas e recipientes de plástico, pregos, madeira, carvão, hortaliças várias, cereais… Vêm aqui muitos também de Nyala: os pobres, chegam em bicicleta, para adquirir a baixo preço óleo vegetal, algumas rações de cereais e pacotes de leite em pó fornecidos pelas ONG e pelo Programa Alimentar Mundial; os ricos, com carroças e camiões, sobre os quais carregam sacos, caixotes, fardos de roupa… para vender na cidade. «É o nosso tormento», segreda-me um membro de Action Contre la Faim, uma organização francesa. «Nós fornecemos as ajudas, mas não podemos distribuí-las. Essa tarefa cabe apenas ao Comité de assistência humanitária, do Ministério dos Assuntos Internos. Que não prima de modo algum pela moralidade. Calculamos que só 20% das ajudas chegue a quem delas precisa.» Duas enormes cloacas Nos dois campos nada funciona. As latrinas são a céu aberto e sempre cheias; as cisternas de água potável estão sempre secas. De Junho a Setembro, Kalma e Bileil são duas enormes cloacas. Um representante dos Médicos sem Fronteiras, holandês, diz-me: «Não há higiene. Os lixos são empilhados ao lado das tendas. Há um nível de promiscuidade que assusta. O risco de epidemias é elevadíssimo. Esta gente, vinda de aldeias limpas e salubres, não está habituada a esta confusão. Os casos de suicídio são muito frequentes.»Em meados de Março, retomo o avião para Cartum. O meu assento é ao lado do de um voluntário belga e de uma dirigente da UNICEF francesa. Os Mig, os helicópteros, os carros armados, as tendas cheias de munições estão ainda ali na pista, como também os homens da Amis.A senhora francesa está no Darfur há mais de dois anos. O seu relato confirma-me aquilo que vi. Depois diz: «Aqui está em curso um “Ruanda 2”. Não exagero. Estamos já a metade das vítimas daquele genocídio, e se a comunidade internacional não intervier, aqueles números serão atingidos e ultrapassados.» Pergunto-lhe o que pensa do Conselho dos Direitos Humanos, reunido em Genebra para a sua IV sessão sobre o Darfur. Sorri: «O relatório preciso e pormenorizado apresentado pela Comissão encabeçada pela Nobel da Paz Jody Williams deveria ser suficiente para despertar o mundo inteiro. Mas acontecerá o que aconteceu de outras vezes: Cartum continuará, impunemente, a fazer o que quer nesta região martirizada.» Além-Mar, Junho de 2007 Ler mais Página inicial
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