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Testemunhos![]() » Vídeos » Cartas de colaboradores no terreno Os senhores do Darfur"A Auatif não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios. «Dizias que me ias mostrar a tua aldeia!?» «É aqui mesmo. Foi! Até há dois anos.» Os meus pés estão a pisar escombros; vêem-se canas no chão, sinal de algo que foi a sebe de um pátio. Aqui e além alguns restos de tijolos «verdes» (assim chamados porque cozidos ao sol). O aldeamento já não existe, mas o nome ficou: Talata Ardeb. «A minha casa era mesmo ali em frente. Consistia num kurnuk, uma guttia (isto é: duas cabanas distintas no seu formato e aplicação) e um pátio; a minha foi uma das poucas das 37 famílias que puderam escapar antes do grande massacre, onde foi morta quase metade da população.» Quanto ao El Nur, agora habita, com a mulher e os três filhos, em Majok, uma aldeia perto do aeroporto de Nyala que os janjauid não destruíram, talvez para fazer boa impressão a quem chega a Nyala por via aérea.» «E aquelas mulheres (bem mais de uma dezena) que andam a rebuscar lenha?» «Não as conheço, mas não podem ter vindo senão no campo de refugiados de Kalma, a três quilómetros daqui.» Não muito longe de nós, um rebanho de umas três centenas de ovelhas e cabras vagueia livremente à procura de pasto que o sol abrasador de 43 graus fez desaparecer, aumentando o deserto que, entretanto, espera a próxima bênção das chuvas. Estendo os olhos na direcção das colinas de Dajo e avisto duas grandes manadas de camelos que imaginei tivessem fugido dos seus donos para agora, com toda a liberdade, tomarem conta dos mangueirais aí à volta. Aquelas mangas não terão tempo de se criar e amadurecer. O El Nur, com uma frase que lhe custou muito pronunciar, assentiu: «Tudo o que vemos à nossa volta pertence agora a um só e mesmo dono (colectivo): os janjauid. Terra, manadas e rebanhos, plantações.» «E as mulheres não têm medo?» «O medo está sempre presente. Mas a distribuição de alimentos pelas organizações humanitárias não dá para tudo. Elas sabem que os janjauid podem aparecer a qualquer momento. Mas arriscam porque a prioridade é sobreviver. Tu e eu também estamos em situação de risco.» Procurei dissimular e não dar importância ao arrepio que me veio por todo o corpo. Mas do meu amigo El Nur ouvi palavras que me aliviaram: «Até agora não houve notícias de ataques a estrangeiros. E quanto a mim, já não tenho nada a perder; a minha verdadeira riqueza (mulher e filhos) vive agora em Majok.» Ele parou a olhar para mim, enquanto eu lhe expressava os meus votos sinceros: «Deus te conserve sempre "rico" e te faça realizar os teus desejos.» E ele concluiu à maneira de bom muçulmano: «Ámen.» Quanto a este e outros grupos de mulheres que fomos encontrando a apanhar lenha, só desejo que possam regressar com os feixes ao campo de Kalma. Todas! Porque, frequentemente, algumas delas não têm regressado. Os janjauid são os donos de tudo. E delas também! Quisera não ouvir mais histórias como aquela do grupo de mulheres que saíram, um dia, a apanhar lenha não muito longe do campo de refugiados de Kalma, onde viviam. Uma delas, a Auatif, não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios. Os donos e senhores do Darfur? Não existiriam, se não lhes fosse dada a luz verde dos senhores do Governo de Cartum!" Testemunho enviado por voluntário no terreno, 9/2007
Ao abandono "Correu a voz que a IOM (Organização Internacional para Migração) ia levar – e depressa – os sulistas desalojados para o Sul. Então vieram de muitas partes e de muito longe, sobretudo do Norte do Darfur. Fixaram-se em Bileil, onde já havia tanta pobreza: desalojados. Mas as Organizações têm as suas leis – às vezes leis que não têm em conta a verdadeira situação das pessoas). Assim, não sendo o transporte coisa automática como eles infelizmente pensavam, eles ficaram lá naquela situação. Pouquíssimos têm a sorte de poder trabalhar para alguns árabes(izados) locais. Mas a maioria esmagadora deles estão ali sem nada de nada. Isto desde há um mês. Graças a Deus morreram menos do que eu pensava, mas os que ficam não têm forças para sepultar os mortos (o coveiro ou cangalheiro não é um funcionário aparte e pago como aí, bem o sabes). Mas as viagens deste tipo, mesmo que sejam ONG, não se fazem automaticamente ou só com boa vontade. Quando poderão eles viajar, ainda é segredo (de quem?). Ouve-se mesmo dizer que este ano já não há verbas suficientes para transportar mais ninguém para o Sul. Sabes como é … tudo incerto. Poderias pensar que estou a fazer tragédia mas esta é a verdade. Estamos a forçar todos os meios (ONGs e não só) para que os assistam em medicamentos e alimentos)." Testemunho enviado por voluntário no terreno, 5.2007
Somos muçulmanos. Durante séculos fomos conhecidos pelas carcavanas que levávamos a Meca. Agora nenhum árabe aparece por aqui. Nenhum pergunta pela nossa sorte... Só vocês aparecem por aqui. Fomos abandonados. Obrigado! Rezamos por vossas famílias. Obrigado! Obrigado! Testemunho de um líder religioso num campo de deslocados na fronteira do Chade com o Sudão, 2007 Abdu e Hachim bateram à porta da missão era quase meia-noite. Afoitei-me e fui abrir. «Pedimos protecção por esta noite», dizem. Quase que falam ao mesmo tempo e têm pressa de entrar. «Os amigos dos jaunjauid sabem que estamos aqui na cidade». Abdu e Hachim fugiram de Greida onde se luta há 4 dias. Apareceu uma alma amiga que lhes deu guarida e protecção porque sabia o perigo que tanto eles como eu corríamos. Na manhã seguinte partiram para o sul. Testemunho enviado por voluntário no terreno, 04.2006 Textos enviados por colaboradores da Campanha no Darfur. A reprodução destes textos é permitida e incentivada sob a condição da menção da fonte (incluindo endereço internet). A autoria destes textos teve de ser ocultada devido a ameaças recentemente efectuadas à integridade física destes. A organização, 17/09/2007Documentário de B.Steidle Testemunhos dos sobreviventes do genocídio no Darfur. Filmado nos actuais campos de refugiados no Chade. Ver parte do filme.
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| Esperança para o Darfur. Ajudar quem o mundo esqueceu. |
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